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SAÚDE-AMÉRICA LATINA: Uma frente contra novas ameaças

Marcela Valente

Buenos Aires, Argentina, 9/3/2011 (IPS) – Meia centena de organizações não governamentais da América Latina criaram uma coalizão para combater a incidência de doenças cardiovasculares e respiratórias, diabete e câncer, que são a principal ameaça para a vida dos habitantes da região.

Esse alerta foi dado no dia 4, em Buenos Aires, por representantes dessas entidades, a maioria integrada por profissionais da saúde, que decidiram criar a Coalizão Latino-Americana Saudável (Clas).

Os principais fatores de risco das chamadas enfermidades crônicas não transmissíveis (ENT) são tabagismo, dieta escassa em frutas e vegetais e sedentarismo, entre outros comportamentos pouco saudáveis. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as ENT causam 60% das mortes no mundo e 44% das mortes prematuras. Além disso, 80% destas mortes acontecem em países em desenvolvimento.

“É errado pensar que estes males são apenas de idosos”, disse à IPS o médico Jesús González Roldán, diretor da Sociedade Mexicana de Saúde Pública e delegado da União Internacional contra a Tuberculose e Enfermidades Respiratórias. “No México, a esperança de vida é de 75 anos, mas, de cada cinco mortes, três ocorrem antes dessa idade por doenças não transmissíveis e ainda em idades produtivas”, alertou.

Em seu país estas doenças matam dez pessoas por dia, disse Jesús. Se há 50 anos a principal causa de morte era uma enfermidade infecciosa, hoje esses males foram substituídos pelas ENT, assegurou. A preocupação pelo aumento da prevalência e da mortalidade destas enfermidades foi discutida em fevereiro no México, em uma reunião de ministros da Saúde das Américas convocada para analisar os novos desafios.

Naquela ocasião, o mexicano José Córdova Villalobos disse que em 1960 as ENT eram responsáveis por 7% das mortes nas Américas e agora esse indicador passou para mais de 70%. E mais, a diabete mellitus associada à obesidade é hoje em dia a principal causa de morte no México. A segunda são as doenças cardiovasculares relacionadas com as más condições de vida, acrescentou.

Os ministros decidiram trabalhar de maneira comum com vistas à cúpula da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre ENT, que acontecerá em setembro, em Nova York, e o mesmo fizeram as entidades da sociedade civil. O encontro foi convocado pela ONU, por iniciativa da Comunidade de Nações do Caribe, região que sofre os piores indicadores de morte por essas enfermidades.

Em conversa com a IPS, o médico Eduardo Cazap, presidente da União Internacional para Controle do Câncer (UICC), alertou que esta doença está em aumento. No mundo, são 12 milhões de novos casos por ano e na América Latina 1,2 milhão. “Para a década de 2020 a 2030, em países centrais a quantidade de casos de câncer vai se estabilizar com um leve crescimento, mas na América Latina, Ásia, África e em alguns países do Oriente Médio triplicará”, ressaltou. Essas regiões em desenvolvimento suportariam uma carga maior de doenças que se somam a outros problemas sanitários próprios dos países pobres.

Eduardo explicou que os fatores genéticos explicam apenas 8% dos casos. Por outro lado, “a cura está em aumento”, comemorou. Se em 1950 apenas 20% dos cânceres eram curados, agora essa proporção aumentou para 50%. Contudo, o problema “não é de saúde pública, mas de desenvolvimento humano”, destacou.

Para combater a doença, Eduardo disse que é preciso educar a população, fazer prevenção primária e diagnóstico precoce. A população deve levar “um estilo de vida saudável”. Isto significa manter o peso, aumentar o consumo de frutas, verduras e pescado, praticar atividade física, expor-se ao sol com moderação e, naturalmente, não fumar, insistiu.

Verônica Schoj, da Fundação Interamericana do Coração, disse à IPS que na América Latina o consumo de tabaco é muito alto e em alguns países, como Argentina, Chile ou Cuba, está “entre os mais altos do mundo”. Dentro de uma epidemia muito grave, há tendências novas que preocupam, como o aumento do consumo por mulheres e crianças. “Há países onde a idade inicial é de 12 anos e em outros chega a oito”, disse Verônica.

A médica afirmou que na Argentina o câncer de pulmão duplicou nas mulheres nos últimos 20 anos por causa do tabaco e que, se a tendência for mantida na região, em pouco tempo esses casos superarão o câncer de mama. Envolverde/IPS

(FIN/2012)

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