Home » Comércio e desenvolvimento, Featured, Headlines, IBSA-featured » O G-20 fala apenas o idioma da crise financeira

O G-20 fala apenas o idioma da crise financeira

Emilio Godoy

Foto oficial da reunião do G-20 na Cidade do México. / G20 México

Foto oficial da reunião do G-20 na Cidade do México. / G20 México

México, 28/2/2012 (IPS) – O Grupo dos 20 países industrializados e emergentes (G-20) deixou o México sem definir mecanismos para enfrentar a ameaça de outra recessão mundial ou a crise da dívida europeia, e também continua sem abordar temas urgentes como a mudança climática ou a emergência alimentar.

Em uma declaração de 12 parágrafos, os ministros da Fazenda e presidentes dos bancos centrais, reunidos sábado e domingo na Cidade do México, não se referem à crise alimentar da África e dedicaram apenas duas menções à energia e ao clima. Isso apesar dos chamados de organizações da sociedade civil para que a agenda fosse ampliada para as crises climática e alimentar e a outros temas que impactam a população mundial.

“Vimos uma falta de disposição para tomar decisões de fundo. É uma espécie de derrota e indisposição para mudar as coisas no âmbito internacional. Ficou claro que não querem realizar grandes mudanças. O problema é que esses países são determinantes em todos os organismos”, disse à IPS Alfonso Ramírez, presidente da el Barzón.

Esta instituição pertence a uma rede de organizações não-governamentais centrada nos temas do G-20 e surgiu devido à crise financeira que atingiu o México em 1994, pulverizou a poupança de milhões de pessoas, acabou com milhares de postos de trabalho e gerou tremores na economia global.

Ministros e funcionários reunidos na capital mexicana acordaram elaborar um relatório sobre o impacto da volatilidade dos preços das matérias-primas no crescimento econômico. Este estudo “deve avaliar opções de política que os países possam considerar que reduziriam a excessiva volatilidade das matérias-primas ou mitigariam seus efeitos sobre o crescimento e o bem-estar dos segmentos vulneráveis. Isso para aproveitar as oportunidades de crescimento econômico que esses mercados apresentam”, diz o documento final do encontro.

Um total de 56 ONGs de 14 nações apresentou ao encontro financeiro uma série de assuntos para serem incluídos em seu debate, como segurança alimentar, transparência e combate à corrupção, inclusão financeira e luta contra a fome. Na verdade, as ONGs consideram que esses assuntos devem estar presentes na agenda dos chefes de Estado e de governo do G-20 que se reunirão em junho na cidade mexicana de Los Cabos.

O G-20 reúne os países industrializados do Grupo dos Oito (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Japão, Itália e Rússia) e as potências emergentes: Brasil, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, China, Coreia do Sul, Índia, Indonésia, México, África do Sul e Turquia. Também participa a União Europeia (UE).

Os ministros acordaram melhorar o diálogo entre produtores e consumidores de energia, mediante maior transparência dos mercados de gás e carvão; funcionamento e supervisão das agências envolvidas com o preço do petróleo, e a limitação e o fim, no médio prazo, de subsídios ineficientes para combustíveis fósseis.

“É preciso reduzir os subsídios para os combustíveis fósseis no médio prazo, é necessário diante da mudança climática”, disse ao final da reunião a ministra dinamarquesa das Finanças, Margreth Vestager. “Há um amplo consenso sobre a economia verde e a transição (para menor dependência de combustíveis fósseis). Temos que encontrar formas de fortalecer o crescimento, a pesquisa e o investimento”, acrescentou a representante da Dinamarca, país que neste semestre preside a UE.

Mas, precisamente, a luta dos Estados Unidos e de outros países ocidentais com o Irã por seu programa nuclear encarece o petróleo, o que, por sua vez, representa uma ameaça para a combalida economia mundial, às portas de uma nova recessão, destacaram especialistas financeiros ao comentarem a reunião do G-20.

Além disso, os delegados solicitarão a organismos com o Banco Mundial e as Nações Unidas a elaboração de um informe que apresente ao grupo diferentes opções para inserção de políticas de crescimento verde e desenvolvimento sustentável em suas “agendas de reformas estruturais”.

O encontro na Cidade do México evidenciou as diferenças dentro do G-20 diante dos pacotes financeiros destinados a encarar a crise mundial. Enquanto a UE quer que o Fundo Monetário Internacional (FMI) dê mais dinheiro para esse fim, nações emergentes, como México e Brasil, propõem contraprestações para que isso seja feito.

Mas, durante os dois dias de reunião não ficou claro o que a União Europeia pode oferecer em troca de maior contribuição do FMI, dirigido pela francesa Christine Lagarde, além de acelerar as lentas reformas desse organismo e do Banco Mundial. “Continuaremos com o processo de revisão da fórmula que determina as cotas do Fundo, para que estas reflitam adequadamente o peso relativo das economias dentro do sistema global”, afirmou o ministro mexicano das Finanças, José Meade, ao término do encontro.

As nações emergentes querem que o bloco europeu crie mais barreiras financeiras, ou “corta-fogo”, para que a crise não se propague, como ocorreu em 2008, quando teve início nos Estados Unidos uma crise que acabou se espalhando mundialmente. O novo pacote anticrise estará na mesa de debate da reunião conjunta da primavera boreal do fmil e do Banco Mundial, que habitualmente acontece em abril, em Washington.

Então, os representantes do G-20 terão de enfrentar a definição das quantias das contribuições destinadas a conjurar uma crise que agora se irradia a partir da UE. Até agora, a eurozona ofereceu um aporte ao FMI de US$ 200 bilhões, mas o órgão retruca que precisa de pelo menos US$ 500 bilhões para encarar os efeitos da crise.

“Há um entendimento amplo de que os corta-fogo têm que ser fortalecidos para conseguir estabilidade financeira. Cremos que os recursos do FMI devem ser assegurados rapidamente. Acordamos com o FMI que os desafios não se limitam à Europa, por isso cremos que deve haver corta-fogo efetivo”, disse Vestager.

Para Ramírez, de El Barzón, os resultados do encontro da capital mexicana podem ser uma antecipação do que ocorrerá em junho na cúpula de chefes de Estado e de governo. “A reunião irá por um caminho diferente das resoluções que tomamos (dentro da sociedade civil). Está totalmente ausente de nossos propostas e tememos que esteja fora dos resultados da cúpula do G-20”, destacou o ativista.

Em Los Cabos, segundo a agenda prevista, os governantes do G-20 abordarão políticas contra a crise financeira, segurança alimentar, crescimento verde e luta contra a mudança climática, além de outros assuntos. Envolverde/IPS
(FIN/2012)

Short URL: http://www.ibsanews.com/pt/?p=15884

on Feb 28 2012. Filed under Comércio e desenvolvimento, Featured, Headlines, IBSA-featured. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response or trackback to this entry

Leave a Reply

RSS IBAS na Mídia

  • SHYAM SARAN: Lacklustre Brics play to China’s score in Delhi pact
    BusinessDay Published: 2012/04/02 It is clear that China is emerging as the pre-eminent partner in the Brics grouping THE Delhi Declaration and Action Plan adopted at the fourth Brics summit in New Delhi last week would have quickly laid to rest any residual anxiety in western capitals that a serious rival focus of power and [...]
  • Australia invites more Indian investments, collaborations
    The Hindu, 31 January 2012, With Indian corporate sector having committed heavy investments in Australia in the mining, mineral and other sectors, bilateral trade is likely to touch Rs.2-lakh crore (Australian $40 billion) in the next three years from Rs.1.10-lakh crore (Australian $22 billion). In an effort to attract Indian investments further, the Australian Trade [...]
  • Indian tourists to SA rise by over 100% – minister
    City Press, South Africa, 31 January 2012, The number of Indian tourists travelling to South Africa increased by over 122% between 2005 and 2010, says Tourism Minister Marthinus van Schalkwyk. “South Africa is continuing to attract Indian tourists in great numbers, with 67 039 Indian tourists travelling to South Africa between January and September 2011, [...]

Agradecimentos e links

Este portal de notícias é gerenciado pela agência de notícias IPS. A IPS agradece o apoio do Banco Mundial.
IPS Inter Press Service World Bank

IBSA Home Page

O conteúdo dos artigos aqui publicados
é de responsabilidade exclusiva da IPS.
A IPS não é responsável pelo conteúdo de sites externos

© 2013 Notícias IBAS e portal de mídia – Índia, Brasil e África do Sul. All Rights Reserved. Log in - Designed by Gabfire Themes -->