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DESENVOLVIMENTO: Ibas ajuda sem compromisso

Marina Penderis

Johannesburgo, África do Sul,, 15/4/2011 (IPS) – Os doadores do mundo industrializado costumam impor condições rígidas aos países beneficiados.

Mas a cooperação Sul-Sul permite um novo enfoque de financiamento pelo Fundo Ibas para Aliviar a Pobreza e a Fome. O novo mecanismo “tem a ver com as prioridades do país ou do governo receptor, ao contrário das relações com outros doadores. Não se trata de impor condições”, afirmou o embaixador do Brasil na África do Sul, Fernando Sena.

O grupo Ibas (Índia, Brasil, África do Sul) começou em 2003 com o objetivo de promover a cooperação entre os três países, o que fez aumentar o comércio entre eles, que chegou a US$ 15 bilhões em 2010, bem mais do que os US$ 3,8 bilhões de 2004. O Fundo Ibas foi criado em 2004 com US$ 1 milhão entregue por cada um dos sócios. O dinheiro se destina a projetos de desenvolvimento em países de baixa renda. O mecanismo não tem sua própria secretaria, por isto é gerido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Com o Fundo Ibas, foi financiada uma iniciativa para melhorar as práticas agrícolas na Guiné-Bissau e outra para reunir facções em confronto no Haiti na zona de Carrefour Feuilles, propensa à violência, mediante um projeto conjunto de coleta de lixo sólido. “Não é um empréstimo e não pretendemos que nos devolvam”, explicou Sena. Enquanto economias emergentes que ainda têm necessidades em matéria de desenvolvimento, os membros do Ibas estão decididos a se afastar o máximo possível da tradicional relação doador-beneficiário.

“Temos nossas próprias necessidades, e nos move um interesse solidário em relação aos outros. A ideia é apoiar projetos viáveis que posam ser reproduzidos, com base nas capacidades do Ibas e nas experiências de sucesso em nossos territórios. Os projetos devem se basear nas necessidades locais, ser geridos e de propriedade da população local”, explicou Sena. “Compartilhamos nossa experiência enquanto país em desenvolvimento. Quando falamos de cooperação não tentamos impor nossa posição. É uma conversação. Não dizemos ao beneficiário o que deve fazer. Não somos arrogantes”, acrescentou o embaixador.

As razões para criar o Ibas incluíram o desejo de operar “de forma independente dos preconceitos das nações ricas”, disse o enviado brasileiro à África do Sul, José de Sá Pimentel, em um discurso pronunciado em março. “A guerra do Iraque e o colapso econômico de 2008 corroeram a ordem mundial e deixaram claro que são necessárias novas regras e novos atores se quisermos que o sistema funcione de forma mais adequada. No momento, não há resposta das potências nem das organizações que devem abrir o caminho”, ressaltou.

“Os sinais de algo novo são indiscutíveis, mas restam dúvidas sobre seu alcance, sua profundidade e direção. Há um caminho em marcha a respeito do equilíbrio econômico, embora lento, que beneficia os países do Sul. No entanto, os principais atores não parecem estar no banco do motorista”, acrescentou. O Fundo Ibas oferece uma oportunidade para testar um enfoque viável de desenvolvimento Sul-Sul, embora limitado. Também permite que novos atores coloquem à prova suas capacidades “no banco do motorista”, segundo Pimentel.

“O motor do Brasil são os recursos naturais e a mineração. A Índia se propõe a impulsionar o desenvolvimento na África porque lhe convém ampliar seus mercados. Já o papel da África do Sul está baseado em sua influência no continente”, disse Petrus de Kock, pesquisador do Instituto de Assuntos Internacionais, com sede em Johannesburgo.

“É um indicador interessante que, em 2008, Índia tenha gasto US$ 547 milhões em assistência, seja de forma direta ou indireta, vinculados ao Ibas”, afirmou Kock, pesquisador do programa “governança de recursos da África”, do Instituto. No mesmo ano, a Índia entrou com outros US$ 2,96 milhões em linhas de crédito, a maioria para países da África subsaariana. Esta contribuição não se relaciona com o Ibas, mas “mostra como a Índia se converte em um ator importante na assistência ao desenvolvimento”, acrescentou.

Para Lyal White, diretora do Centro de Mercados Dinâmicos do Instituto Gordon de Ciências Empresariais, da Universidade de Pretória, o Brasil é o ator político mais forte do Ibas. Esse país “tem mais interesses criados”, disse White. “A Índia tende a se concentrar em seu compromisso unilateral e a África do Sul faz parte da África”, acrescentou, lembrando que “Brasília utiliza a plataforma Ibas de forma mais efetiva como fórum diplomático e político”.

Os membros do Ibas podem ter diferentes prioridades, mas as democracias multiculturais com economias emergentes que compartilham fazem com que no futuro possam desempenhar um papel no cenário mundial. “As economias do Norte vivem em perpétua crise. A população da Europa envelhece e diminui, o que implica ficar mais dependente do Estado. Para um panorama sobre o futuro crescimento da economia global é preciso olhar os Ibas do mundo”, disse Kock. Envolverde/IPS

(FIN/2012)

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